O Jesus que se esquece
O Jesus que se esquece
David Bastida Santos
Em
muitos espaços contemporâneos, o nome de Jesus continua sendo amplamente
pronunciado, atravessando discursos, celebrações, produções religiosas e
debates que buscam reafirmar sua centralidade na experiência de fé. No entanto,
por trás dessa presença constante, emerge uma inquietação que não pode ser
ignorada: até que ponto o Jesus anunciado corresponde, de fato, àquele que se
revela nas narrativas evangélicas?
Ao
retomar o contexto histórico e social de Jesus, como propõe o autor José
Pagola, no livro Jesus: Aproximação Histórica, torna-se evidente que sua
atuação não pode ser compreendida a partir das categorias de poder, controle ou
delimitação religiosa. Jesus se insere em uma realidade marcada por desigualdades
profundas, exclusões legitimadas por estruturas religiosas e tensões sociais
intensas. É nesse cenário que sua prática ganha sentido: não como reforço da
ordem vigente, mas como deslocamento dela.
Pagola
evidencia que Jesus não se define por discursos abstratos, mas por uma prática
concreta de aproximação. Sua autoridade não nasce da imposição, mas da forma
como se relaciona com aqueles que ocupam os lugares mais vulneráveis da
sociedade. Ele se senta à mesa com publicanos, figuras socialmente desprezadas,
não para validá-los dentro de um sistema moral, mas para reinseri-los na lógica
da dignidade. Dialoga com a samaritana, atravessando não apenas uma barreira
cultural, mas também religiosa e de gênero. Aproxima-se de Zaqueu sem exigir um
percurso prévio de purificação. Toca leprosos, desafiando não apenas normas
sanitárias, mas todo um imaginário de impureza que os condenava ao isolamento.
Defende a mulher acusada, deslocando o foco da culpa para a consciência de quem
julga.
Esses
gestos, longe de serem exceções, revelam uma coerência interna que estrutura
toda a sua ação: Jesus não organiza sua vida em torno da manutenção de
fronteiras, mas da reconstrução de vínculos. Seu anúncio do Reino de Deus se
concretiza na experiência do encontro, onde a dignidade humana precede qualquer
classificação moral.
No
entanto, ao longo da história, e de maneira particularmente visível na
contemporaneidade, observa-se, em determinados contextos, uma inversão dessa
lógica. Aquilo que nasce como abertura passa a ser interpretado como
delimitação. Grupos se constituem como se fossem portadores exclusivos da
verdade, estabelecendo fronteiras simbólicas que definem quem pertence e quem
deve ser excluído. Discursos passam a identificar culpados com rapidez,
enquanto certezas se consolidam como formas de controle.
Essa
configuração contrasta profundamente com a tradição evangélica. Como aponta
Leonardo Boff, o núcleo da experiência cristã não está na defesa de estruturas,
mas na vivência da misericórdia como princípio organizador da existência. Para
Boff, a ética do cuidado revela que o outro não pode ser reduzido a categorias
ou julgamentos, mas deve ser reconhecido em sua condição humana, anterior a
qualquer rótulo.
Da
mesma forma, Henri Nouwen insiste que a espiritualidade cristã autêntica não se
constrói a partir da superioridade, mas da vulnerabilidade compartilhada. Para
ele, o encontro com o outro não é um movimento de quem possui respostas para
quem carece delas, mas um espaço onde ambos se reconhecem em suas fragilidades e
possibilidades.
Nesse
horizonte, respeitar quem é diferente, em sua forma de pensar, de viver ou de
expressar sua fé, não representa uma ameaça à identidade religiosa, mas uma
exigência de sua maturidade. A alteridade não fragiliza a fé; ela a aprofunda,
deslocando-a de um lugar de segurança para um espaço de responsabilidade.
O
risco, portanto, não está apenas na negação explícita de Jesus, mas na sua
ressignificação silenciosa. Fala-se tanto sobre Ele que, paradoxalmente, sua
prática pode ser esvaziada. Quando a fé se transforma em mecanismo de
distinção, ela se distancia daquilo que a originou.
Jesus
não reuniu seguidores para formar uma elite espiritual, mas para provocar uma
transformação do olhar. Aprender a ver o outro não a partir de sua adequação a
normas, mas a partir de sua dignidade. A misericórdia, nesse contexto, não é um
gesto pontual, mas uma estrutura de relação que rompe com a lógica da
retribuição e inaugura uma nova forma de existência.
Retornar
ao Evangelho, portanto, não é um exercício de confirmação, mas de confronto.
Ali, o Cristo não aparece como guardião de fronteiras, nem como legitimador de
exclusões. Ele se apresenta em movimento, atravessando caminhos, entrando em
casas, escutando histórias, tocando feridas e reconstruindo vínculos. Talvez o
maior desafio do nosso tempo não seja falar menos de Jesus, mas falar dele com
mais fidelidade.
Fidelidade
não às interpretações que o acomodam, mas à presença que desinstala, que
aproxima, e que insiste em lembrar que a fé nunca foi construída para separar
pessoas, mas para reconectá-las à dignidade que Deus inscreveu em cada vida.
Referências
BOFF,
Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis:
Vozes, 1999.
NOUWEN,
Henri J. M. O retorno do filho pródigo: a história de um regresso ao lar. São
Paulo: Paulinas, 1997.
PAGOLA,
José Antonio. Jesus: aproximação histórica. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.