A porta dos feridos
A porta dos feridos
P. Ademir Guedes Azevedo, cp.
A pregação sobre Deus nunca
perdeu seus aspectos de grandeza. Parece que sempre buscou-se garantir a
transcendência, mas divorciada da imanência. A história tem nos mostrado as
consequências deste tipo de teologia: guerras, preconceitos, intolerância,
autoritarismo, medo e, atualmente, a polarização religiosa que gera os
nacionalismos inférteis. Privatizar o discurso religioso, a partir de suas
categorias de grandeza, é negar o que tem de mais precioso na revelação cristã:
aquela história de um Deus que se fez homem para nos ensinar a viver em
plenitude.
Entretanto, se consideramos a
encarnação em perspectiva de kenosis, podemos refazer a nossa experiência
com o Deus encarnado, pois a kenosis retira de Deus a armadura dura e
pesada que a religião colocou sobre Ele. Só o Deus encarnado pode nos indicar
outro caminho alternativo que nos faz mais semelhantes a Ele. Eu considero que tal
caminho é aquele percorrido pelos feridos. Estes representam toda a humanidade,
em seu aspecto mais genuíno.
Os feridos abrem uma nova
porta que nos põe em sintonia com o Deus da revelação. Eles nos ensinam que o
próprio Deus entra na história sem que dela saia ileso. É isso que vemos em
Jesus. Já no ventre de uma mulher, ali já está ferido pela pobreza humana. Em
seu nascimento, depara-se com outra ferida: aquela da perseguição dos
poderosos. Em seu ministério não foi diferente, pois teve que assumir, como
consequência de tudo o que disse e fez, a cruz mais cruel preparada por aqueles
que controlavam o sistema religioso e político. Jesus, sempre ferido, toca as
nossas feridas para nos indicar o caminho mais feliz, a meta mais alta que
compendia todo o desejo de Deus para cada um de nós: a ressurreição. Ele só
realiza o projeto do Reino, em obediência ao Pai, porque uma vez ferido, sabe
curar as nossas feridas: Ele cai, mas para nos levantar; Ele chora, mas para
nos consolar; Ele sente sede e fome, mas para nos saciar. Não é possível crê em
Deus sem antes reivindicar suas feridas. Só podemos segui-lo se Ele estiver
ferido. Esta é a prova de que não seremos jamais iludidos. Fora desta condição,
corremos o risco de esvaziar o sentido maior da Cruz de Cristo.
Tomás Halík em sua obra Toque
as feridas (p. 13), insiste: “Para mim não existe outro caminho, não
existe outra porta senão aquela que é aberta por uma mão ferida e um coração
traspassado. Não posso clamar “meu Senhor e meu Deus” sem ver a
ferida que alcança o coração. Se credere (crer) provier de cor dare
(dar o coração), então preciso confessar que meu coração e a minha fé só
podem pertencer ao Deus capaz de mostrar as suas feridas.” Hoje, em um
mundo marcado por tragédias e desconfortos de toda ordem, a fim de progredir
numa fé adulta, deveremos aprender a passar pela porta dos feridos, aquela pela
qual Deus também atravessou em sua kénosis para assumir a história de
sofrimento, lugar teológico e existencial da dor humana. Somente assim, nosso
Deus encontrou a dose certa do remédio da misericórdia que cura e dá vida em abundância.
No século 18, em pleno
iluminismo, onde a razão pretendia humilhar toda e qualquer experiência de fé,
surge na Igreja Paulo da Cruz propondo a ciência da cruz como única sabedoria
capaz de dar um sentido maior a vida. Ele dizia: “Na Paixão de Cristo não há
engano, quem se aconselha com o Crucificado jamais erra”. Paulo não se cansava
de pregar: “A Paixão de Cristo é o remédio mais eficaz para todos os males”.
Mais do que nunca continua sendo válido seu convite de olharmos sempre para o Crucificado,
o Deus ferido que nos abre aquela porta pela qual somos convidados a atravessar
para aprendermos a amar e a curar as nossas feridas.