O Jesus que não tem pressa
O Jesus que não tem pressa
David Bastida Santos
Se há um traço da vida de
Jesus que se torna particularmente desafiador quando confrontado com a
experiência contemporânea, é a sua relação com o tempo. Em uma cultura marcada
pela aceleração, pela produtividade e pela lógica da urgência permanente, o
modo como Jesus se movimenta nos Evangelhos parece deslocado, quase
incompatível com o ritmo que passou a organizar a vida moderna.
Ao percorrer as narrativas
evangélicas com um olhar atento, como propõe o autor José Antonio Pagola, na
obra Jesus: Aproximação Histórica, percebe-se que Jesus não estrutura sua
missão a partir de uma agenda rígida ou de metas orientadas pela eficiência.
Sua ação se desenvolve no caminho, no encontro e na disponibilidade para o
inesperado. Ele não está apressado em cumprir tarefas, mas profundamente atento
às pessoas que surgem ao longo do percurso.
Esse detalhe não é
secundário. Ele revela uma compreensão distinta do que significa agir no mundo.
Jesus caminha com seus
discípulos por vilarejos e estradas, atravessando espaços onde a vida acontece
de forma concreta. É nesse deslocamento que Ele se deixa interromper. O cego à
beira do caminho grita e, enquanto outros tentam silenciá-lo, Jesus para. A
mulher que sofria há anos se aproxima em silêncio e, mesmo em meio à multidão,
Ele percebe o toque. No caminho para a casa de Jairo, onde a urgência parece
impor uma prioridade absoluta, Ele se detém para escutar uma história que, à
primeira vista, poderia ser considerada secundária.
Essas cenas indicam que,
para Jesus, ninguém é atraso, ninguém é interrupção, ninguém é descartável
diante de uma suposta prioridade maior.
Essa lógica se distancia
profundamente da racionalidade contemporânea, que organiza a vida a partir da
otimização constante do tempo. Como analisa Byung-Chul Han, vivemos em uma
sociedade do desempenho, marcada pelo excesso de estímulos e pela incapacidade
crescente de sustentar uma atenção profunda. Nesse cenário, o outro tende a ser
percebido não como presença, mas como obstáculo. A pressa, portanto, não é
apenas uma característica do cotidiano, ela se torna uma forma de relação.
Quando essa lógica
atravessa a experiência religiosa, seus efeitos se tornam ainda mais evidentes.
A fé passa a ser vivida de forma acelerada: busca-se respostas imediatas,
soluções rápidas, experiências intensas, mas pouco duradouras. Há pouco espaço
para processos, para amadurecimento, para silêncio.
Como observa Henri Nouwen,
o verdadeiro encontro exige presença, e presença não pode ser reduzida a um
instante funcional. Estar com alguém implica abrir mão do controle do tempo,
permitindo que a relação se desenvolva em sua própria profundidade.
Nesse sentido, o modo como
Jesus se relaciona com o tempo revela uma dimensão essencial de sua prática:
Ele não apenas anuncia o Reino de Deus, mas o encarna na forma como se faz
presente. Sua atenção não é fragmentada, sua escuta não é parcial, sua presença
não é apressada.
A tradição espiritual
também reconhece essa dimensão. Simone Weil, ao refletir sobre a atenção,
afirma que a verdadeira atenção é uma das formas mais puras de generosidade.
Essa perspectiva ilumina a prática de Jesus, que transforma o ato de parar,
escutar e olhar em um gesto profundamente transformador.
Essa mesma percepção
aparece também em chave literária na obra Entre Passos e Palavras, onde se
sugere que a vida não se revela nos momentos de aceleração, mas naquilo que só
pode ser percebido quando o sujeito se permite caminhar com atenção. A pressa,
nesse horizonte, não apenas encurta o tempo, ela empobrece a experiência,
reduzindo a profundidade dos encontros e tornando a existência funcional.
Talvez uma das distorções
mais sutis da experiência religiosa hoje não seja o abandono da fé, mas sua
adaptação à lógica da urgência. O encontro é substituído pelo procedimento, a
escuta pela resposta pronta, a presença pela funcionalidade.
Mas o Evangelho não se
constrói na pressa. Ele se constrói no tempo do encontro, no tempo da escuta, no
tempo em que alguém decide parar.
Recuperar o Jesus do
Evangelho, portanto, exige reaprender a desacelerar, não como recusa do mundo,
mas como fidelidade a uma forma de presença que resiste à superficialidade. Porque,
no caminho de Jesus, quem não sabe parar dificilmente consegue enxergar.
Referências
HAN,
Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
NOUWEN,
Henri J. M. O retorno do filho pródigo: a história de um regresso ao lar. São
Paulo: Paulinas, 1997.
PAGOLA,
José Antonio. Jesus: aproximação histórica. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
SANTOS,
David Bastida. Entre passos e palavras.Campina Grande: Experaí editora. 2ªed, 2025.
WEIL,
Simone. A gravidade e a graça. São Paulo: Martins Fontes, 1993.