Sem Chorar com as Vítimas, não há Evangelho
Sem
Chorar com as Vítimas, não há Evangelho
P.
Ademir Guedes Azevedo, cp.
Estamos
acostumados a falar de Deus a partir da positividade: o Deus da «vitória», o Deus
«libertador», o Deus
da «justiça».
Contudo, esquecemos que Ele também é o Deus que assumiu a negatividade e,
justamente nesse ponto decisivo, tocamos o núcleo mais profundo da revelação. A
tradição ocidental sempre concebeu o «Ser» como
fundamento da existência; fora do Ser, haveria apenas o nada, e tudo o que
escapa a essa lógica é visto com suspeita. Entretanto, a fé cristã subverte
essa estrutura filosófica quando se confronta com o escândalo da cruz, lugar
onde se manifesta também o «não-ser».
A cruz,
por si só, é sempre um escândalo, pois representa um instrumento de tortura.
Torna-se ainda mais escandalosa quando aplicada a inocentes e justos. E atinge
seu ápice quando nela é pregado o Filho de Deus. Não adianta tentar suavizar
esse escândalo com palavras de consolo ou deslocando tudo para a «outra
vida». O
cristianismo só permanece verdadeiro quando é fiel ao escândalo da cruz, que
deve ser o critério para discernirmos nossa fidelidade ao Evangelho. Em alguns
ambientes, tenta-se esconder o Crucificado, substituindo-o pelo Ressuscitado.
Mas o Ressuscitado é fruto inseparável da cruz assumida até as últimas
consequências.
É
preciso mergulhar mais fundo para captar a singularidade da Cruz de Cristo.
Nela, segundo o Evangelho de São Marcos, acontece algo terrível e
desconcertante: um homem inocente e justo agoniza e clama ao Pai, mas recebe
apenas um silêncio cortante. Naquele momento extremo, parece que Jesus não vê
realizar-se o Reino que tanto anunciou. Imóvel na pobreza daquele lenho, não há
cegos que recuperem a vista, surdos que ouçam, coxos que caminhem… nada. Tudo
indica que o anti-reino triunfa. E o mais doloroso: Jesus, com o grito sufocado:
«Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» parece
não ouvir nenhuma resposta daquele a quem sempre chamou de Abbá. Onde
está o Deus ao qual permaneceu fiel até o fim, disposto a beber o cálice até a
última gota? No escândalo da cruz, o pecado parece mais forte. Mas será mesmo
assim?
O
mistério da cruz revela um «não-dizer» e um «não-fazer» de Deus
diante do sofrimento do Filho. Um olhar de fé, porém, permite perceber algo
mais profundo. O Pai renuncia ao seu poder para encarnar-se no sofrimento do
Filho. Ele quer livrá-lo da dor, mas não o pode fazer, não por impotência, mas
por solidariedade. Assim, Deus torna-se semelhante a Jesus, pois ainda lhe
faltava experimentar plenamente a humanidade vivida pelo Filho, humanidade
mergulhada na dor. Na cruz, Deus distancia-se do Crucificado para aproximar-se
de seu sofrimento, para saber o que significa passar pela dor. A antiga imagem
grega de um deus apático é superada: Deus conhece agora o páthos. O
Filho, ao levar suas chagas para o seio da Trindade, torna o Pai semelhante a
Ele por meio da cruz escandalosa. A partir daí, devemos reconhecer que o
Evangelho possui também essa face, que não pode ser negada nem diminuída: o
Evangelho da cruz é a dor de Deus por toda a humanidade. Ele nos cura porque se
feriu conosco e, assim, conhece o remédio exato para nossa dor: a ressurreição.
Só
compreenderemos o que acontece hoje com a humanidade se não fugirmos do
escândalo da cruz. Vivemos um tempo marcado por múltiplas feridas:
desigualdades que se aprofundam, violência que se banaliza, crises humanitárias
que se multiplicam, povos inteiros obrigados a migrar, a destruição da casa
comum avançando de forma alarmante. Cada vida perdida pela fome, pela guerra,
pelo abandono, pela negligência social ou pela indiferença coletiva é uma
ferida aberta no corpo da humanidade. Não podemos suavizar essas ausências.
Elas são vítimas de uma história que nós mesmos continuamos a escrever, muitas
vezes guiados pelo poder, pela indiferença e por uma ideia ilusória de
progresso que exclui e descarta.
A
atitude de Deus, também aqui, é a do silêncio solidário, não porque seja
indiferente, mas porque está mergulhado na dor das vítimas. Ele não age pela
força, pois escolheu a via da crucificação para revelar-se como Deus bom e
compassivo. Deus chora porque sente a intensidade da dor humana em cada época,
inclusive na nossa. E é justamente nesse choro que se manifesta sua
parcialidade: sua opção preferencial pelos feridos da história. Creio que ainda
não choramos o suficiente por essas vidas silenciadas. Sem solidariedade e sem
a experiência das lágrimas, não há cristianismo autêntico, e a cruz de Cristo
corre o sério risco de cair no esquecimento.