Os abusos sexuais e a escuta qualificada
Os abusos sexuais e a escuta qualificada
Os abusos nas relações humanas acontecem de diversas formas: o econômico, o de autoridade, o de consciência, o sexual e assim por diante, sempre que está presente quaisquer formas de violência. O que urge nas estruturas, não só da Igreja, como de todas as instituições, é uma formação da cultura do cuidado e da proteção de cada pessoa humana, principalmente dos mais frágeis e excluídos da sociedade. A Igreja demorou em tomar algumas atitudes em relação aos desvios comportamentais de alguns dos seus membros, que vale ressaltar, não são só os ministros ordenados; mas, outrossim, cada fiel batizado que cometeu algum tipo de violência ou foi negligente, com atos e palavras, no trato para com os vulneráveis. Por causa disso, em nossos dias precisa avançar, como está fazendo para sanar os erros do passado e reestruturar a sua sistemática verbal e comportamental para ser testemunha da sua sacramentalidade, como assumir eficaz e eficientemente o seu papel de mãe e mestra. Tudo isso deve fazer com que reconheçamos que o tema do ‘cuidado e prevenção de abusos ao seu interno’ é complexo e tem que ser abordado com transparência e responsabilidade a partir da sua identidade mais profunda, a fim de que a sua credibilidade seja resgata junto a sociedade.
Nesse processo é fundamental que nos preparemos para ouvir as vítimas, suas famílias,os demais membros das comunidades e escutar, acima de tudo, ao que o Espírito Santo diz à sua Igreja (cf. Ap 2,7). A metodologia da escuta é imprescindível. Uma que seja qualificada, empática, respeitosa e sensível aos sofrimentos que os abusos causam às pessoas. Os Papas Bento XVI e Francisco deixaram claro que a “tolerância é zero”. Leão XIV reafirma a orientação dos seus predecessores (cf.https://agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-papa-reafirma-tolerancia-zero-para-casos-de-pedofilia). A “’caritas in veritate’ é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da ação moral” (cf. Bento XVI, Caritas in Veritate, 6). Por isso, juntamente com a atenção caritativa com todos os envolvidos, não pode haver subterfúgios para que seja sonegada a justiça. A Igreja determinou que estruturas e protocolos sejam organizados em cada Igreja Particular da catolicidade. E não podem ser só instrumentos de aparência e formalidades. Precisam ter proatividade e viver a experiência da “saída missionária”. Deve ir às comunidades e fazer saber a todos quais os procedimentos que necessitam ser assumidos por todos os sujeitos eclesiais. Não esqueçamos: o drama dos abusos tem a ver com todos do corpo eclesial, ou seja, com todos os batizados, sejam eles sujeitos ou objetos dos comportamentos hediondos. O Papa Francisco na Carta ao Povo de Deus deixou um ensinamento basilar e evocativo para todos os membros da Igreja e da sociedade na sua totalidade (cf. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2018/documents/papa-francesco_20180820_lettera-popolo-didio.html).Um caminho de conversão pessoal e estrutural não pode permitir que os lobbies e corporativismos permissivos continuem a imperar em muitos mecanismos eclesiásticos; pois, cedo ou tarde, a verdade aparece.
Durante séculos, com a sua organização e mentalidade clericalistas, principalmente do final da modernidade para o início do pós-moderno, com sua moralidade relativista, por mais que alguns não aceitem, em muitos espaços formativos da Igreja, a quantidade tornou-se mais importante do que a qualidade de muitas de suas lideranças. Quando o mundo não exigia tanto, a Igreja foi exigente na formação integral dos seus ministros ordenados, quando a cultura mudou de referenciais, a Igreja assumiu a ideia que a quantidade não era tão necessária. Na atual conjuntura social, política e econômica, com os tantíssimos desafios à sua pastoralidade, a Igreja tem que investir no aprofundamento espiritual, intelectual dos seus membros, para que os mesmos tornem-se capazes de fazer a “leitura dos sinais dos novos tempos”. Claro que tudo alicerçado num ‘humanismo integral’. Por mais que o protagonismo dos leigos seja de fato a grande força da Igreja no terceiro milênio, já que são estes que estão inseridos no mundo secular, a missão dos ministros ordenados continuará a ter um lugar essencial na caminhada das comunidades, já que estas sempre necessitarão dos sacramentos, especialmente da Santíssima Eucaristia, para não perderem o seu fundamento objetivo à sua catolicidade. O que ainda nos falta é um recepção mais clara e pastoral dos ensinamentos conciliares, mesmo com todo o impulso dado pelo Papa Francisco, com suas linhas pastorais da conversão missionária de toda a Igreja e o estilo sinodal a ser testemunhado por todos.
A organização das metodologias, a atenção à qualidade da formação de todos os membros da Igreja, especialmente dos seus ministros ordenados; uma cultura do cuidado para que geremos proteção e respeito por todos, a desconstrução do clericalismo, que é uma forma distorcida de pensar e exercer o poder no cotidiano das comunidades eclesiais, a transparência das ações, a começar das questões econômicas até as de outra ordem, relações mais humanizadas e respeitosas da dignidade dos próprios fiéis, que, canonicamente, são sujeitos de direitos e não só de deveres; a própria sociedade que não deveria relativizar tantas outras formas de confusões, violências e desrespeitos, que vão sufocando princípios básicos de convivência fraterna, até potencializarem os comportamentos desequilibrados em esferas variadas da condição humana. Temos que reconstruir paradigmas civilizatórios, dentre estes o da capacidade de ‘escutas qualificadas’ com suas consequências ao bem comum e à justiça social. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN