Um drama teológico
Um drama teológico
Pe. Matias Soares
O drama teológico do contemporâneo é
que não aprofundamos mais o mistério de Deus. A teologia necessita redescobrir
a sua vocação por excelência. Depois que foi preceituado que a religião ficaria
limitada pelos ditames da razão, houve a desconstrução sistemática e continuada
da necessidade de Deus ao ser humano. A substituição do teológico pelo
antropológico nos mancos e miseráveis do objeto da nossa condição
transcendental, que está cada vez mais sendo revalidada em nossos dias.
Contudo, a questão que si nos impõe é que temos muita religião, mas pouca fé;
quando consideramos que é “Deus o objeto da teologia” (cf. Santo Tomás).
A partir das construções filosóficas dos “mestres da suspeita” - Freud,
Marx, Feurbach e Nietzsche - tivemos o reconhecimento de como o discurso
sobre Deus na passagem da modernidade à pós-modernidade estaria sendo
vulnerabilizado na cultura pós-cristã.
O que temos como percepção dos sinais
dos novos tempos é que o fenômeno religioso ganha corpo. Está presente nos
meios de comunicação, nas periferias das grandes cidades, espaços de poder,
como as assembleias legislativas, com as bancadas da bíblia, e outras
estruturas institucionais que não podem ser desconsideradas por nós. Contudo,
parece-me que precisamos aprofundar essa diferença entre a narrativa religiosa,
que permanece no âmbito da construção racional; mesmo tendo presente que para
nós cristãos católicos a razão e a fé são duas vias que nos levam ao
conhecimento da Verdade. O desenvolvimento teórico elaborado por aqueles “mestres
da suspeita” (cf. Paul Ricoeur) encontra força num cristianismo que
potencializou os elementos religiosos, que são secundários, depois do
distanciamento gradual e histórico do acontecimento central e fundamental do
Cristianismo das comunidades primitivas, com sua clarividente experiência do
“encontro pessoal com Jesus Cristo” (cf. Bento XVI, Deus Caritas est, 1).
Diante deste cenário, que deveria ser
preocupante à nossa pastoralidade e à nossa ação evangelizadora, quero provocar
essa reflexão como observador de um cenário, principalmente na ordem sistêmica
e social do nosso Brasil, que mesmo sendo de tradição católica, tem tomado cada
vez mais elementos, que são consumidos para os alívios das frustrações
existenciais e sociais, com a sonegação das lideranças religiosas que lucram e
são alimentados por estes métodos pervertidos do mal uso da boa fé das pessoas,
principalmente das pobres e abatidas, do “Cristianismo Puro e Simples”, ou da
“Essência do Cristianismo” (cf. C.S. Lewis; Bruno Forte). Ouso afirmar
que, nalguns casos, há mais religião eivada de paganismo. A teologia precisa
apresentar esse problema, como uma preocupação pastoral delicada e que poderá
nos trazer confusões, tanto para a própria identidade da Igreja, como para o
desenvolvimento humano e integral das pessoas e seus reflexos na salubridade do
ordenamento social. Temos que aprofundar os princípios fundantes da fé cristã e
que constituem a genuína vitalidade da Igreja, como sacramento universal de
salvação e sinal do Reino de Deus entre nós.
Sem dúvida, o ‘estatuto epistemológico’
da teologia não pode ser mais construído a partir da lógica medieval. Com a
reviravolta copernicana na filosofia da ciência, aprimorada por Immanuel Kant
(cf. “A Crítica da Razão Pura), que inverteu a pirâmide dos fundamentos do
saber, e o reconhecimento deste paradigma pela Igreja, já com o Concílio
Vaticano II, que colocou o mistério do ser humano, que só é respondido pela
Verdade sobre Jesus Cristo (cf. Gaudium et Spes, 22), os rumos da
ciência teologia também passam a considerar essa “mudança
antroplógica-teológica” no desenvolvimento do seu sistema. Sem dúvida, além de
outros, merece menção o teólogo Karl Rahner, que representa bem essa reforma
dos fundamentos (cf. Curso Fundamental da Fé). Vejamos que há uma evolução, que quando
chamamos em causa um outro gigante da teologia moderna, nos ombros do qual
deveríamos subir, como o teólogo Teilhard de Chardin, somos chamados a ter
presente que no início e no fim, tudo nos levará ao Cristo Total-Cósmico.
Por fim, merece uma atenção especial da
nossa parte a encíclica do Papa Leão XIV, a “Magnífica Humanitas”. Com
ela, a Igreja reconhece que estamos vivendo amplamente - igreja, sociedade,
planeta, cultura - uma nova mudança de época. Tivemos a passagem do teológico
ao antropológico; e agora uma outra superação do humano com as narrativas de
fundo do transumanismo e pós-humanismo (cf. MH, 115-117). O ensinamento
deste formidável documento do Magistério Social tem muito a nos dizer,
inclusive ao modo com o qual teremos de pensar o dinamismo da fé nesta nossa
Era. A expressão transversalizada pelo filósofo francês, Edgar Morin - Complexidade
-, recentemente falecido, pode ter um
lugar interessante na nossa reflexão teológica, caso queiramos estar situados
aos problemas que nos são apresentados; pois estamos em tempos complexos.
Enquanto humanos abertos ao transcendente, podemos nos abrir às possibilidades
da ciência teológica, a fim de que ela possa ser um farol para fazermos a
hermenêutica da histórica, iluminados pelo que ela genuinamente pode nos
oferecer: A abertura da nossa condição humana às possibilidades do Amor e da
Verdade que só Deus pode Ser. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN