Um encontro necessário
Um encontro necessário
Pe. Matias Soares
A Igreja viveu nos últimos meses o preocupante Cisma
testemunhado pelos Lefebvrianos, “apesar das generosas tentativas dos santos
Paulo VI e João Paulo II, da decisão de revogar a excomunhão tomada por Bento
XVI e das faculdades concedidas por Francisco, com as consagrações ilícitas
realizadas contra a vontade do Papa, a Fraternidade volta a separa-se de Roma”
(cf. https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-07/o-cisma-de-lefebvre-se-repete-apos-38-anos.html).
Essa radical tomada de decisão já vinha sendo preparada. Sem dúvida, havia uma
expectativa de que o Papa Leão retrocedesse no magistério desenvolvido pelos
seus predecessores, especialmente, em relação ao de Francisco, que teve uma
marca decisiva na implementação dos ensinamentos conciliares, especialmente na
dimensão missionária e no estilo sinodal para toda a Igreja. Ainda temos que
fazer uma ponderação mais ampliada deste acontecimento; pois, estes cismáticos
são a ponta do icebergue de algo mais profundo, que são os que não aceitam na
eclesiologia e nas ações os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Estes, que são
mais católicos do que o Papa, que minam e ferem o corpo místico de Jesus
Cristo, estão por aí, com seus cismas furtivos e traiçoeiros, nas redes
sociais e nas celebrações tribais, dizendo claramente que não aceitam o que
a legítima Tradição Viva nos ensinou, através dos sucessores dos apóstolos, no
Concílio Ecumênico Vaticano II.
O paradigma
da política, que a partir das bases ideológicas do “senhor e do escravo”, com
raízes hegelianas, portadas às demais relações sociais, com canalizações
universitárias até às perfurações institucionais, que colocam no jogo dialético
a busca permanente da superação do nós contra eles, entrou com força nas várias
eclesiologias contextuais pós-conciliar, gerando perplexidades e hermenêuticas
bipolares das construções teológicas do Concílio e, com isso, impostações
nominais como ‘direta e esquerda’, ‘conservador e liberal’, ganharam corpo e
‘partidos’, que corrosivamente empobrecem e desvirtuam a beleza e a
grandiosidade eclesiológica do Concílio, com suas inovações bíblicas,
litúrgicas, dialógicas, ecumênicas e missionárias. Nos distanciamos da eclesiologia
do Povo de Deus e daquela do Corpo Místico de Cristo, tendo como referência o
paradigma teológico, e em muitos casos nos deixamos envolver mais pelo das
ciências humanas. O grande embate ideológico existente nas estruturas da Igreja
no pós-concílio é na sua raiz um problema teológico. Até os nossos dias não
conseguimos internamente ‘escutar’ as subjetividades contemporâneas. Quando
estudamos a Crítica da Razão Pura (cf. Immanuel Kant), começamos a ter
uma idéia de uma das suas grandes causas, que nos paralisam nas possibilidades
pastorais que nos foram oferecidas pelo Concílio. Por isso, o apego obtuso de
muitos ao movimento “retrópico” (cf. Z. Bauman) com a narrativa de
auto-engano da fidelidade ao catolicismo ‘puro e simples’; mas sem comunhão com
o que está sendo vivido pela Igreja na sua catolicidade, com Pedro e sob Pedro.
Desta
forma, faz-se mister um ‘encontro necessário’ e sinfônico. Rogo-me aqui, subir
nos ombros de um gigante da reflexão católica, o teólogo Hans Urs von
Balthasar, que deu ênfase ao papel institucional de Pedro e de Maria ao
carismático (cf. Esistenza Sacerdotale, pág. 47-58). Concernente
especificamente a Pedro, o teólogo suíço afirma que “a Igreja visível não é
algo abstrato, mas é concretizada em cada momento de modo simbólico-real nos
homens e através de si mesma: por meio dos Doze com Pedro ao centro, como o
campo sobre o qual é constituído o edifício”. E continua ele, “a promessa a
Pedro (que Mateus acrescenta à primeira profissão de fé de Pedro no Messias,
mas que talvez tenha sido pronunciada só depois da Pascoa), pressupõe já a
chamada dos Doze, o seu deixar tudo e a sequela. A instituição e os poderes
sacerdotais vem só em segundo lugar, precedidos de uma existencial ser-com
Jesus. Nele, afirma Balthasar, “a instituição ou a missão é superior à pessoa:
‘Tu és Simão, mas serás Pedro’ - de novo o futuro torna-se tempo soberano”.
Essa teologia do primado é irrenunciável à autêntica catolicidade da Igreja.
Onde está Pedro, está a Igreja. Esse sinal visível de unidade é uma das marcas
que fazem com que ela seja reconhecida como Una e Católica.
O encontro
é o caminho para que de fato reencontremos a Verdade da nossa fé. Quando um
Reino se divide, está a buscar a própria destruição (cf. Mt 12,25). Numa
cultura tão marcada pelas negações e polarizações ideológicas, a Igreja não
pode cair nesta armadilha do inimigo; pois, a comunhão é o sacramento da
comunidade (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/a-comunh%C3%A3o-o-sacramento-da-comunidade).
A sua existência mais profunda deve ser sempre um reflexo do mistério
trinitário. Em nossos tempos, com o Papa Francisco, e agora com Leão,
reassumimos a emergência de sermos uma Igreja da comunhão, da participação à
missão permanente, e isso “porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o
instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano,
pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior
insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E
as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja,
para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos
outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a
plena unidade em Cristo” (cf. Lumen Gentium, 1). Sendo essa a
preocupação dela mesma para as demais pessoas, ainda mais para ela mesma, na
sua interioridade.
Desta forma, as categorias ideológicas com as quais
muitos tentam estigmatizar quem faz parte da constituição da Igreja, como Povo
de Deus e Corpo Místico de Cristo, graças ao batismo, precisam ser superadas
pelo paradigma da teologia sinfônica e da justa hermenêutica, que favorece o
desenvolvimento e a atualização das linhas mestras da eclesiologia presente nos
documentos conciliares, mais especificamente na Lumen Gentium - Luz dos
Povos - e na Gaudium et Spes - Alegria e Esperança. O contra testemunho
eclesial dos Lefebvrianos deveria ser um alerta para todos; ainda mais àqueles
que flertam com essas variações pré-modernas e carregadas de imaturidade
eclesial. Aprendamos a caminhar juntos nas diferenças, sentindo com a Igreja e
sendo confirmados na fé por aquele que é o único sucessor de Pedro, que, no
momento reinante, é o Papa Leão XIV. Os desafios culturais nos puxam para a
‘ditadura do relativismo’; mas também, podemos buscar um fechamento que não não
foi a orientação dada por Jesus Cristo, quando nos enviou para anunciemos o
Evangelho a toda criatura (cf. Mt 28, 19-20). Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN