O Pacto Educativo estadual e a Questão Climática
O Pacto Educativo estadual e a Questão
Climática
A Província Eclesiástica de Natal realizou no dia
vinte e cinco de agosto do corrente ano o Seminário de Caicó, com a temática
do “cuidado com a nossa casa comum”, considerando especificamente os
desafios existentes na região do Seridó do nosso RN. Esse é o quarto
acontecimento realizado para o desenrolar do Pacto Educativo Estadual, proposto
pela Arquidiocese de Natal (cf. https://agorarn.com.br/ultimas/arquidiocese-de-natal-projeto-pacto-educativo-global).
Na linha da
Doutrina Social da Igreja, a questão climática é o sétimo princípio norteador
da proposta do Pacto Educativo Global, lançado pelo Papa Francisco e reafirmado
pelo Papa Leão XIV (cf. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_letters/documents/20251027-disegnare-nuove-mappe.html:
10.1). O evento contou com a participação de mais de duzentas pessoas, com
representações institucionais, lideranças políticas, professores, estudantes,
ministros ordenados e tantos populares que ali tinham ‘esperança’ de socializar
e serem ouvidos nas suas dores e angústias. As três Igrejas Particulares -
Arquidiocese de Natal, Caicó e Mossoró - estavam muito bem representadas, com a
presença marcante dos bispos, ou seus representantes.
A
programação constou de acolhida e formação de mesa, assinatura de protocolos de
intenções entre as Dioceses e a UERN, com o intuito de serem firmadas parcerias
em prol de projetos que somem esforços para o processo educativo e promoção
humana das comunidades, conferências de professores que nos apresentaram os
desafios que teremos pela frente com a chegada do ‘El Ninõ’, que está a bater
às nossas portas, com a contínua problemática social da verticalidade versus a
horizontalidade estrutural, que sempre impõe as penalidades aos mais pobres.
Essa problemática, naquela região do nosso estado, encontra maiores
preocupações devido à exploração mineral que está acontecendo em Currais Novos,
que tem tido encantos econômicos imediatos para uma parte da população e
sofrimentos para outra, que tem sofrido com as consequências ambientais destas
interferências da força das maquinas e presenças ofensivas aos que ali moram e
são habitantes nativos.
Por trás de
tudo isso está a narrativa do progresso, o emprego, a renda e o
desenvolvimento; contudo, é sempre necessário perguntar: esses para quem? Para
que? A que custo? O que está em jogo é sempre o problema da colonização. Quem
tem as possibilidades de domínio e, neste caso, as grandes empresas e
mineradoras, que detêm o capital, vem, explora, tira as nossas riquezas,
acumula seus lucros e as pessoas, com sua dignidade, são descartadas. Neste
contexto, especificamente, a destruição ambiental chegará e só tornará inóspito
o cenário que será contaminado e destruído pelas ações humanas. No testemunho
das pessoas, que participavam conosco, foi relatado que as mesmas não têm mais
a quem recorrer. O poder público, com seus órgãos de controle, não interfere e
nem responde às denúncias feitas. Casas estão rachadas e sinais de problemas de
saúde já aparecem. Os animais e a vegetação típica da região, a água, que já é
de difícil acesso, tendem a ser cada vez mais escassos, devido ao uso
descontrolado e à sua possível contaminação futura.
Diante de
tudo isso, foi indagado o que eles esperam da Igreja. Num primeiro momento,
tanto um dos professores, quanto um dos moradores, responderam que esperam a
sua “proximidade”. Esperam ser ouvidos e a sua maior inserção na vida das
comunidades. O que vale ressaltar, pelo menos neste primeiro momento, é que a
mesma Igreja possibilitou este espaço de fala e debate, justamente como um
mecanismo de projeção e agendamento dos desafios. É tempo de ver e analisar com
toda a sociedade, com uma ampla mobilização e organização popular para que
tenhamos meios de resistência e diálogo para possíveis consensos. Neste
sentido, não só a Diocese de Caicó, quanto as demais Dioceses da Província, têm
que trabalhar de modo sinodal e profético, com anúncio e denúncia. O poder
público também deve ir ao encontro das pessoas, principalmente dos mais pobres
para sentir os seus dramas; pois ele existe justamente para garantir a
“dignidade humana de todas as pessoas’.
Enfim,
mesmo tendo clareza que a questão ambiental é uma temática transversal,
o Pacto Educativo Estadual tem como principal objetivo promover e
desenvolver um ‘Movimento’ que priorize a “educação integral e inclusiva” para
todos os Potiguares. Para isso, urge uma ‘constelação dos saberes’ (cf. https://cnbbne2.org.br/artigo-o-encontro-de-angicos-e-a-constelacao-de-saberes).
Esse é um dos tantos desafios que, todos nós, com essa ‘Aliança Educativa’,
temos a responsabilidade cristã, eclesial e cidadã, como norte-rio-grandenses,
de enfrentar para o bem-estar do nosso presente e, especialmente, para as
futuras gerações. A conversão ecológica, sobre a qual nos admoestou o Papa
Francisco, precisa ser ecoada testemunhada em nosso Estado, que não pode
entregar-se ao canto das sereias. Para isso, temos que investir na proposta do
Pacto Educativo Estadual, que, antes de tudo, tem que ser um projeto de povo
(cf.https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-05/natal-pacto-educativo-estadual-sociedade-potiguar.html),
a fim de que possa ser civilizatório. Assim o seja!
Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo
Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN