O Pacto Educativo e a Política

O Pacto Educativo e a Política

 

O objetivo desta reflexão é situar a proposta do ‘Pacto Educativo Estadual’ no cenário contemporâneo; tendo em vista que um dos princípios da ‘Aliança pela Educação’ é o de “renovar a política” (cf. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_letters/documents/20251027-disegnare-nuove-mappe.html: 10.1), considerando que o Brasil é um país com graves dificuldades de apropriar-se da compreensão que a política é o meio pelo qual o bem comum e a justiça social são buscados para todos. Cotidianamente acompanhamos os desmandos e comportamentos vergonhosos de agentes públicos, que agem de modo espúrio em prejuízo da população. Temos problemas escandalosos com a corrupção, que insiste em fazer parte dos governos, sejam de direita ou de esquerda, já que temos que suportar esse clima de polarização ideológica; com seus interesses partidários e com sua alimentação constante, sempre com a lógica perversa e nefasta da conquista do poder pelo poder. A democracia é sempre ameaçada, com as tentativas suplantá-la, seja pelo uso da força; como também, pela alienação das massas. Desta forma, temos muitas dificuldades, neste cenário, de qualificar a política. Esse é um desafio que deveria nos interpelar, num projeto educativo que seja genuinamente civilizatório.

 

No acompanhamento das propagandas e debates, o que infelizmente percebemos é o despreparo da maioria dos candidatos, com suas exceções, que não sustentam-se pelo ‘analfabetismo político’ da maioria da população (cf. https://tribunadonorte.com.br/colunas/artigos/a-municipalidade-e-as-eleicoes), como temos a oportunidade de observar em outros momentos. Esse perfil da política brasileira tem raízes históricas; principalmente pela não valorização da educação, desde o início da nossa colonização. Basta termos presente que só tivemos as primeiras universidades, depois que a família real, fugindo de Napoleão, chegou ao Brasil em 1808. Torno presente este fato histórico, porque uma das questões que a educação não pode deixar de considerar é a formação política das pessoas, mesmo sabendo que isso nunca será de interesse da minoria que sempre dominou a maioria. Na colonização, fomos sugados por aqueles; a partir da modernidade, são os daqui que continuam a ser os exploradores, que fazem da política um meio de vida, sempre com a metodologia do ‘pão e circo’, sem um real investimento da libertação das pessoas, como deveria ser a ‘vocação’ própria da política (cf. H. Arendt).

 

Na Igreja também há uma afetação desta forma de lidar com o ordenamento das coisas; pois estamos sendo, nalgumas situações, reféns do “populismo eclesiástico” (cf. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/185-noticias-2016/555147-populismo-ou-elitismo-na-igreja-a-necessidade-de-redefinicao-do-catolicismo-artigo-de-massimo-faggioli). Esse fenômeno precisa ser aprofundado em nossas práticas pastorais. Esse modus operandi  tem feito com que o populismo assuma o lugar de valores essenciais à credibilidade da Igreja que, a longo prazo, poderá ser prejudicada por estes estratagemas humanos. Temos que assumir com profunda seriedade e grande discernimento o que queremos para o bem maior do povo de Deus. Assim como a política civil necessita de qualificação; a política eclesiástica não pode ser sufocada pelos lobbies e maquinações, demasiadamente humanos. O Papa Francisco enfatizou a emergência da “conversão missionária” das nossas estruturas e denunciou o “mundanismo espiritual” que nos envolve, com nossas mentalidades eclesiásticas, com a amnésia do evangélico e eclesial, seguindo uma linha da quantidade, sem qualidade. Isso tem feito com que a virtude seja desvalorizada pelas narrativas enganadoras e alienantes.

 

Num dos seus mais importantes documentos - Todos somos irmãos - , O Papa Francisco nos apresentou, a partir da Doutrina Social da Igreja, o propósito da “política melhor” (cf.Fratelli Tutti, cap. V). Segundo Francisco, “precisamos duma política que pense com visão ampla e leve por diante uma reformulação integral, abrangendo num diálogo interdisciplinar os vários aspetos da crise. Continua ele, “penso numa política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, que permitam superar pressões e inércias viciosas. Não se pode pedir isto à economia, nem aceitar que ela assuma o poder real do Estado. Perante tantas formas de política mesquinhas e fixadas no interesse imediato, lembro que a grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo. O poder político tem muita dificuldade em assumir este dever num projeto de nação e, mais ainda, num projeto comum para a humanidade presente e futura (cf. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html: 177-78), pontuou Francisco. 

 

A partir destas linhas mestras, podemos pensar acerca da nossa forma de fazer política, seja ela civil ou eclesiástica; já que não podemos dispensar a afirmação aristotélica de que “somos seres políticos”. Sempre estamos em comunidades e isso ganha mais força quando somos interpelados por Jesus Cristo, de Quem somos discípulos missionários, a sermos um, como Ele e o Pai são Um (cf. Jo 17,21); todavia, não podemos ter as mesmas “atitudes políticas dos chefes das nações” (cf. Mc 10,43). Por isso, a tarefa educativa, seja pela via evangélica, ou pela ‘formação política’, precisa promover “o desenvolvimento de hábitos solidários, a capacidade de pensar a vida humana de forma mais integral, a profundidade espiritual, que são realidades necessárias para dar qualidade às relações humanas, de tal modo que seja a própria sociedade a reagir face às próprias injustiças, às aberrações, aos abusos dos poderes econômicos, tecnológicos, políticos e mediáticos(cf. Fratelli Tutti, 167). O Pacto Educativo Estadual, que é uma proposição não só para quem está fora da Igreja; mas, ainda mais a começar da sua vida interna, é um caminho que precisa nos levar, enquanto Igreja e sociedade, a ressignificar a política como uma via indispensável da promoção do bem comum e da justiça social. Assim o seja!

 

Pe. Matias Soares

Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório

Natal-RN

Capelão da UFRN  

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